BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Pacto de amor



Tenho pensado muito no amor. Durmo amor, acordo amor, resmungo e respiro amor. Tomo café sentindo aroma de amor. As canções no carro, na vitrola são de amor. Meus filmes antigos — Oh my God! — são histórias de amor... Incomoda-me não o amor nesses dias, mas o que resultará do mundo se rarear pelo espaço e tempo. Mas que amor é esse que as pessoas clamam, buscam, rastejam por querer?

Outro dia, numa conversa sobre política, sem querer, soltei a frase: "Este mundo não está legal...". Sem dizer precisamente o quê. Fazia referência a tudo que nos cerca, dos caminhos tortos que a vida, no conjunto da raça, tem tomado. Com valores distorcidos, moralidade ética baixa, corrupção alta e muita gente não se indignando com nada. Simplesmente assistindo tudo, passivamente, comendo pipoca, ouvindo música pelo iPhone, numa fria arquibancada de cimento.

Não sei dizer se já foi pior — guerras mundiais que não vi, com muito ódio espalhado por aí —, mas o amor não vai bem no mundo, senão não estaríamos reclamando tanto sua ausência, ouvindo queixas das pessoas de todas as idades. Reproduzo, no anonimato, um pequeno texto que recebi pelo WhatsApp (modernidade do desabafo): "...O que há com o mundo? Será esse o nosso destino permanecer só? Quem muito deseja tem seus sonhos traídos, mas aqueles que não esperam são surpreendidos. E eu me pergunto: onde está o amor?". Desabafou minha nova amiga, que já confessou o sonho do casamento e da maternidade. Ela, apesar de nova, tem desejos antigos: quer ser mãe de muitos filhos e ter um amor para vida toda.

Não dá para responder de súbito, ou tentar campear palavras, quando de quem se queixa não é um indivíduo único; aquele que dia desses abria a porta do carro para ela entrar, e dizia coisas lindas no seu ouvido. Mas de uma legião de outros semelhantes, gananciosos por ostentar e preocupados, e tão somente, com seu umbigo, sua cerveja, sua academia, seus bíceps, suas festinhas, happy hours sem compromisso e por levar um número maior de moças para cama.

Dizer o quê? Há esperança do grande amor acontecer um dia? Sim!, ela é nova, bonita e ainda é possível que um desses por aí, seja diferente dos demais (despertado do seu egocentrismo), e sua alma o encontre na fila do supermercado. Muitos tropeços acontecerão até aquele eterno namorado venha sufocar seu vazio e dor.

Há muitas frases que Nelson Rodrigues deixou. Estou lendo agora o livro de Luiz Felipe Pondé "A filosofia da Adúltera", onde ele disseca o íntimo rodriguiano. Nelson filosofou muito sobre o amor, mas a que separei para este singelo texto é: "Este mundo não é a casa do amor". Havia um contexto, é claro, mas fiz minha interpretação: "casa" é moradia e o amor não encontra morada nessa casa (Terra), ele mora em algum lugar, mas não aqui. Não nega sua existência, ele só diz que não mora aqui. Ele perambula mendigo por ai, batendo de porta em porta, mas seu presente e futuro é o chão da rua, sem lar e sem comida. Não tem morada o amor neste mundo. E quem quiser visitá-lo, na essência, terá que se aventurar rompendo fronteiras cósmicas — galáxias (?). A morte, talvez, seja o alcance da plenitude desse amor, na divindade. Quicá, quisesse dizer Nelson: sendo o amor flutuante, inconstante neste mundo, ele não pode encontrar morada onde o trata tão mal e em segundo plano.

Em outros tempos vivi confusões sentimentais. Com elas havia pessoas envolvidas e a psicanálise para desatar tantos nós... Não, hoje eu não sou um ser totalmente "limpo" da sofreguidão pela maturidade; de coisas postas no lugar, organização, sem pecados e um tanto blasé. Erro, mas teimando em acertar mais com a vida.

Fiz amor, quando na verdade fazia sexo. Depois aprendi que não era amor, porque mulheres gostam de dizer que é, talvez porque procuram em tudo o amor. Até no sexo. "O sexo suja o amor. O homem deve possuir todas as mulheres, menos a bem-amada" — disse Nelson Rodrigues. Fingi amor, quando tinha só desejo pelas pernas, pelas coxas, pela bunda, pelos seios e pela boca da mulher na cama. Elas sabem nos enfeitiçar e fui dominado muitas vezes por magia, aflição, loucura e desejo febril. Não senti o amor acontecer depois de tudo consumado. Na manhã seguinte, ele não estava ali entre nós. Era só um gosto amargo de ressaca; uma mistura de gozo com altas doses de whisky, sem Engov.

No sexo, os corpos se trepam; no amor eles se aconchegam.

Agora veio à mente um texto que recebi, na época que ainda se encaminhavam e-mails (começa já fazer tempo...). Dizia o monge da história, que o amor não era um sentimento (separando-o da paixão), mas uma decisão que se toma juntos. Se decide amor, não se sente amor. Desprezei-o e mandei-o para lixeira virtual... Passados esses anos, sinto aquelas palavras me penetrarem como água. O que sentimos, muitas vezes, são sentimentos efêmeros (tesão, atração, ânsia, ciúme); de pouca duração, de horas e dias finitos. O que não conversamos antes, para que tudo dure, é sobre pacto, compromisso, acordos, tarefas, cumplicidade, comprometimento, na presença e na distância dos olhos. Cumprir um acordo, como se negocia um contrato comercial registrado em cartório.

O leitor pode perguntar: "Você está dizendo que o amor é um negócio?". Sim!, exemplifiquei como negócio de objetos, mas o amor é parceria; o amor é negócio de alma; tem profundidade em regiões inatingíveis, onde os objetos não fazem diferença, parte e não penetram. O mais que tudo que precisamos. Aquilo que o psicanalista Flávio Gikovate chama de "mais amor".

Afirmo que o amor é pacto, decisão, trato. Quando duas pessoas têm firmado entre si uma relação cúmplice, e mesmo estando longe de suas vistas, a palavra será mantida, porque tem peso e valor; a fidelidade do trato daquele negócio que se serviram e selaram entre elas — olhos nos olhos. Nas discussões, brigas, o pacto do amor é o pêndulo do equilíbrio que traz a serenidade, acima de qualquer grito mais alto que se ouse, e que supera todas as palavras duras. Pacto de amor, de sangue, de vida e morte, porque não se quebra um trato certificado na alma.

Antes de iniciar o caminhar, vejo aqueles que pactuam o amor na confidência; mas há aqueles que os olhares se cumpliciam já à primeira vista, sem palavras, como se as almas falassem por si. Na palavra ou no olhar, tudo é um pacto que torna as vidas agora transpassadas, entrelaçadas, fundidas numa só; um resgate do amor mendigo (ainda que neste mundo, seja possível existir e morar).

E ao raiar de todos os dias, depois do desfrute dos desejos entre pernas, coxas, seios, boca e sexo bom, que o amor seja devolvido ao corpo sagrado, descoberto do colo e útero da mesma mulher. O meu afã é pela alma feminina. Onde reina meu amor. Onde mora o amor perfeito. 

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Agosto de 2014.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Da Sessão da Tarde

Minha peregrinação em busca do elo perdido continua. Onde deixei meus tesouros guardados? Que cofre ou montanha do meu passado abandonei o que me preenche? Desprezo ao presente? Falta de anseios na vida por lacunas no coração? (O vazio sempre será ocupado por algo). São tantos assuntos para filosofar que renderiam muitas crônicas. Vamos ao que interessa.

Muita gente que me conhece não sabe, mas a maioria dos meus filmes vejo pesquisando sempre pelo diretor e pelos atores que atuam. Nessa seleção, consigo separar o que vale mesmo a pena ver do que é uma incógnita surpresa e do trash

No ambiente da comédia, não consigo classificar nenhum ator contemporâneo que mereça destaque, talvez Adam Sandler. Tornei-me míope para o que há no presente e os ditos filmes "blockbusters". Mas quando olho para o passado, vejo com nitidez: Jack Lemmon, Peter Sellers e o impagável Jerry Lewis (hoje com 88 anos, os outros dois já morreram).

Adquiri recentemente três filmes dublados de Jerry. Os mesmos filmes que via na minha sessão da tarde, que parece que estou lá ainda: antes da pelada no campinho, sentado no sofá de napa vinho da minha sala, vendo num televisor Colorado RQ, em P&B. O Jerry imortal e dos tipos e caras, criados por ele, ainda são impressionantes, atuais, fazendo rir gerações, mesmo essas que não o alcançaram nas sessões da tarde do sofá duro de napa vinho.

Então, revi recentemente, pelo Netflix do meu iPad, "O Professor Aloprado", de 1963, e dei muitas risadas com as trapalhadas do professor Kelp e sua dupla personalidade, o seu alter ego (macho fodão), que criou para impressionar e conquistar sua musa. Com a belíssima Stella Stevens - com carinha e sensualidade congênita da época, como era outra musa Marilyn Monroe.

Jerry ainda me conquista a cada filme, como aquele amor que se renova a cada dia. Não conseguiria citar um filme favorito, porque cada qual tem sua peculiaridade e graça. Mas deixo aqui este vídeo extraído do YouTube, do filme "The Nutty Professor" (O Professor Aloprado).  Aliás, me fez lembrar outro professor destrambelhado, mas vilão: professor Fate. Mas isso é outro assunto para recordar da sessão da tarde...

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© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Agosto de 2014.